11 milhões de brasileiros já adotam teletrabalho

Atividades profissionais desenvolvidas sem a necessidade da presença física do trabalhador nas instalações da empresa conquistam cada vez mais adeptos

Trabalhar em casa, em meio ao sossego do lar, com a possibilidade de realizar as tarefas no momento em que achar conveniente tem se tornado uma escolha cada vez mais comum entre os brasileiros. Segundo Ana Manssour, diretora - presidente da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades (SOBRATT), o número de pessoas envolvidas neste tipo de atividade profissional chega à casa dos milhões.

“A partir do cruzamento de dados das pesquisas do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI) e do Painel IBOPE/NetRatings, é possível estimar que mais de 11 milhões de brasileiros adotam alguma forma de teletrabalho, seja de maneira formal, informal, com ou sem vínculo de emprego, em turno integral, parcial ou eventualmente”, explica Manssour.

O conceito de teletrabalho parte do princípio de que o trabalhador pode desenvolver todo ou parte de seu trabalho a partir de qualquer local, desde que utilize as ferramentas tecnológicas disponíveis atualmente, tais como computador, acesso à Internet de qualidade, hardwares e softwares necessários para o desempenho das suas fun ções.

Em Bauru, profissionais de diversas áreas fazem a opção por trabalhar em seus domicílios. Elaine Bertone é redatora especializada em astrologia, trabalha em casa, mas tem um contrato com uma editora que é renovado a cada seis meses.

“Eu trabalho em casa há cerca de 12 anos ou mais. Acabei fazendo essa opção por perceber que a minha atividade profissional permitia essa alternativa, que naquele momento me pareceu bastante tentadora por duas razões: sempre gostei de muita liberdade, e trabalhar em casa me deixaria mais confortável. Além disso, eu tinha dificuldades para me concentrar no meu trabalho, fazendo parte da equipe de redação da empresa, devido à própria dinâmica que o ambiente de trabalho exige”, explica.

Extra em casa

José Tadeu de Oliveira Filho, jornalista, tem um emprego fixo que realiza na sede da empresa, mas aproveita o tempo livre para fazer outros serviços. “Tudo começou quando eu e um amigo de faculdade decidimos montar uma empresa virtual. Ele ficava em São Caetano e eu em Bauru. Fazíamos o serviço por skype e e-mail. Passado um tempo, desmanchamos a empresa e eu continuei com os contatos. Agora faço atualização de sites, revisão de livros, dentre outras coisas. Faz uns três anos que faço trabalhos extras em casa”, conta.

Samara Freitas da Silva é designer gráfica e também utiliza ferramentas tecnológicas para realizar trabalhos em casa. “Não tenho vínculo empregatício, consigo os trabalhos por indicação de amigos que trabalham na área. Funciona de modo simples: as pessoas entram em contato, me explicam o trabalho, eu faço algumas opções e mando por e-mail. Tenho a resposta do cliente, faço mudanças quando é pedido até chegar no resultado final. Dentre esses trabalhos já fiz logotipos, layouts para sites, folders promocionais, cartões de Natal”, diz.

Ana Manssour explica que a situação de informalidade é comum no País. “No Brasil, embora saiba-se que o sistema de teletrabalho é adotado por muitas empresas, na esmagadora maioria delas isso acontece informalmente, ou de maneira não oficial, e nem sempre de maneira planejada e estruturada. Isso ocorre por várias razões, entre elas o desconhecimento da jurisprudência que aprova o teletrabalho e por uma forte resistência cultural, tanto por parte dos gestores quanto dos próprios trabalhadores e da sociedade”, explica.

Segundo a SOBRATT, as áreas nas quais o teletrabalho é mais comum são tecnologia da informação, vendas e os setores de atendimento ao cliente ou tele-marketing. Isto ocorre devido à natureza destas atividades, que têm maior intimidade com a infra-estrutura tecnológica ou que exigem que o funcionário passe bastante tempo fazendo contato com clientes nas ruas.

 

Vantagens

Com tantos adeptos, é certo que o teletrabalho tem muitos benefícios. Ninguém melhor do que os profissionais que realizam esta atividade para enumerá-los.

Elaine vê como ponto positivo a liberdade na hora de realizar as tarefas. “A vantagem é que você certamente tem mais liberdade de ação, autonomia, e por ter a minha lua em Aquário, essa liberdade é fundamental para a minha criatividade. Nunca gostei de ser cerceada ou de me sentir vigiada, portanto, quem trabalha em casa acaba sendo o chefe de si mesmo”, diz.

José Tadeu atenta para os baixos custos. “Além de poder decidir meus horários, o custo é praticamente zero. Não tenho que me deslocar e o gasto que tenho com energia por causa do computador, eu provavelmente teria se estivesse à toa em casa”, explica.

Samara vê o trabalho que realiza hoje como uma oportunidade de conseguir montar um negócio mais tarde. “As vantagens são a comodidade de estar na sua casa, o horário flexível que você faz e a oportunidade de conseguir clientes fiéis para, um dia, abrir a própria empresa”, expõe.

Segundo Ana Manssour, há benefícios também para as empresas. “A empresa reduz significativamente os custos relativos a aluguel e manutenção de espaço físico, auxílio-transporte, auxílio-combustível e estacionamento. Há experiências e estudos que comprovam um aumento de produtividade dos funcionários de 30% a 60%, o que naturalmente se reflete na agilidade dos serviços prestados pela empresa, melhorando sua imagem no mercado e possibilitando ampliação da carteira de clientes e crescimento real da empresa”, pondera.

Desvantagens

Embora pareça irresistível a possibilidade de trabalhar em casa, quem faz este serviço vê algumas desvantagens. José Tadeu confessa que algumas vezes se atrapalha com as tarefas do dia-a-dia. “Meu escritório é o meu quarto. Por isso, às vezes acabo enrolando para fazer as coisas. Além disso, não é um ambiente apresentável para levar um cliente”, aponta.

Samara, que trabalha de maneira informal, fica insegura com a instabilidade do serviço. “A desvantagem está na instabilidade, não é como num emprego fixo em que você tem garantido seu salário todo mês”, diz.

Elaine alerta para a necessidade de se programar financeiramente e de ter disciplina. “Não tenho férias, décimo terceiro, nem fundo de garantia. Sou autônoma e como tal devo me programar para tirar férias e me disciplinar para ter uma reserva quando eu quiser sair de férias. Como chefe de si mesmo, você precisa ter muita disciplina para cumprir as suas metas de trabalho. Eu tenho um cronograma e sei que preciso trabalhar de 6 a 8 horas diariamente, porque do contrário não atendo às expectativas da empresa”, explica.

Para Ana Manssour, quando há o vínculo empregatício não há desvantagens, e sim obstáculos a serem enfrentados nesta fase de introdução do teletrabalho no País. “Os principais obstáculos são comporta mentais, especialmente quando não é realizado um trabalho prévio de sensibilização e capacitação nem acompanhamento dos funcionários no período de adaptação ao novo sistema de trabalho. É natural que, sem esses cuidados, os trabalhadores tenham dificuldades no que se refere a elaborar e manter uma rotina, a assumirem-se com maior autodisciplina, iniciativa, e estabelecerem limites para si e para a família no dia-a-dia de trabalho”, finaliza.

Frequently Asked Questions. (FAQ)

Quais os principais meios que as empresas que adotam o teletrabalho têm para garantir a produtividade? Nesse sentido, os resultados têm sido satisfatórios?

Um dos mais importantes impactos do advento do teletrabalho nas organizações foi justamente o fato de que a quebra das barreiras espaço-temporais para a realização das atividades empresariais, quebraram com o paradigma secularmente aceito e praticado da supervisão e gerenciamento visual do trabalhador e o controle do tempo de atividade. Ou seja, tradicionalmente se praticava a orientação e supervisão das atividades a partir da observação visual do trabalhador, das suas atividades, das suas pausas no trabalho, e da sua produtividade e do controle das horas trabalhadas. Com o teletrabalho, isto vem se modificando e percebeu-se que a primeira mudança em termos de modelo mental seria passar de uma visão de compra de tempo do trabalhador para um visão de compra de resultado. Assim, já que os controles anteriores não são mais possíveis de atender a esta nova realidade, entendeu-se, ainda que com um grande nível de insegurança, discussão e polêmica, que o foco no resultado garantiria a produtividade. Assim, adotou-se como modelo de gestão viável, a gestão participativa e a administração por objetivos ou por resultados. E nesse sentido, tem-se tanto exemplos e relatos de sucesso, quanto de fracasso. Mas em qualquer que seja o resultado já se tem avaliado que o sucesso e o fracasso estão relacionados com as condutas e o perfil de competências dos telegerentes, mais do que a inadequação ou não do modelo de gestão adotado.

 

Ainda existe preconceito ou resistência - tanto de empregados quanto de empregadores - a essa forma de relação de trabalho?

Ainda existe muito preconceito ou resistência, tanto de teletrabalhadores quanto de empregadores. Por parte dos empregadores, primeiro porque ainda há uma desconfiança com relação a "se os trabalhadores realmente estão trabalhando quando a supervisão não está focada no controle visual e no controle da jornada de trabalho". Uma coisa aparentemente tão simples pode encontrar resistências psicológicas bem firmes, pois essa perda de controle implica numa sensação de perda de poder e sabemos que o poder é uma tônica importantíssima nas organizações. Menor controle, significa menor poder do empregador e maior autonomia do trabalhador. Imagine como fica a cabeça de um gestor tradicional ao imaginar que não controlará mais o tempo de trabalho e nem a forma como este será executado, e que terá que "confiar mais no trabalhador" e terá apenas como garantia os resultados de produtividade previamente fixados, tanto em termos de quantidade, quanto de qualidade. E do ponto de vista do trabalhador, a resistência reside nas mudanças de sinais de "status funcional", pois na empresa, a personalização e a dimensão do espaço que um trabalhador ocupa, o uso de equipamentos e materiais dão sinais do maior ou menor prestígio que um trabalhador possui na organização. Além do mais, deixar de ir à empresa, impacta o sentimento de pertença à um grupo de referência, sentimento este muito importante para a segurança, a auto-estima, e a sensação de realizar um trabalho útil e importante. Num plano mais concreto, há o questionamento sobre as proteções legais do trabalhador e a desconfiança de que o teletrabalho implica em menor remuneração. Isto é apenas uma pequena ponta do Iceberg, mas que já dá para antever que ainda há uma relação de desconfiança mútua entre trabalhador e empregador no que se refere ao teletrabalho, parecendo resgatar a discussão do eterno conflito capital X trabalho.

 

Como o empregado que trabalha em casa deve agir para separar o espaço e a vida profissionais do lado pessoal? É um problema recorrente?

No campo do teletrabalho, como se pode ver, tudo ainda é muito discutível e sujeito à reformulações. É um problema recorrente, a indiferenciação entre vida familiar e vida profissional. Há relatos de extremos em que o trabalhador não consegue fazer esta separação e permite que o conjugê e os filhos frequentem o espaço de trabalho, no horário em que se programou para trabalhar, e ainda que permitem interferências familiares na atividade e que isto atrapalha a produtividade e a qualidade do trabalho.Por outro lado, há também relatos de trabalhador que tão preocupado com a questão de manter a separação entre vida familiar e trabalho, praticamente "expulsa" conjugês e filhos, de casa. As recomendações mais comuns é que se estabeleçam limites, separando bem os espaços e determinando-se tanto quanto possível a trabalhar em horários em que os filhos estão na escola, ou que se isto não for possível, se possa negociar com a família, a manutenção do silêncio e da tranquilidade no espaço de trabalho e a não-interferência nas atividades. Tem-se que isto se define a partir do perfil mais ou menos adequado de um indivíduo para o teletrabalho: organização, iniciativa, auto-motivação, autocontrole, consciência profissional entre outros.

 

Quais as principais dificuldades para aqueles que são adeptos do teletrabalho? E as vantagens?

Como em todo novo contexto, também o teletrabalho apresenta desvantagens e vantagens, e a maior ou menor otimização destas recai sobre as condutas adotadas tanto por parte das empresas como por parte do teletrabalhores. Em relação as dificuldades, fora as já apontadas nas questões anteriores, pode-se ainda destacar o sentimento de isolamento, a tendência ao complexo de adiamento ou de desenvolver a compulsão pelo trabalho (workaholic) não conseguindo mais manter atividades de lazer e de relacionamento social, e a insegurança com relação a sua empregabilidade. Quanto as vantagens, podemos salientar os ganhos sociais e pessoais em termos de economia tanto para empresas como para teletrabalhadores, pois ambos eliminarão alguns gastos relacionados ao trabalho presencial, tais como: redução dos custos fixos das empresas que poderão ter estruturas físicas mais enxutas e reduzidas as suas operações presenciais mínimas, diminuição dos custos de energia elétrica, água, mobiliário e materiais de escritório, eliminação do tempo gasto pelo trabalhador para se locomover até ao local de trabalho, economia de gastos com transportes, diminuição do stress causado pelo trânsito das grandes cidades, maior autonomia e liberdade para definir métodos de trabalho e horários para executar suas atividades e muitas outras.

 

Qual a situação do teletrabalho no Brasil hoje, se comparada com outros países? Onde há maior aceitação? Há números a respeito?

O teletrabalho no Brasil parece vir crescendo gradativamente. Lógico que esbarra nos entraves econômicos e sociais do país, e avança no ritmo em que esses entraves vão sendo superados. O teletrabalho se inicia no Brasil a partir da adoção de empresas multinacionais que começam a adotar aqui práticas já adotadas em suas matrizes. Assim, no Brasil, o teletrabalho está inicialmente vinculado a empresas de capital internacional. Em seguida, começa a ser adotado por empresas nacionais de grande porte. Hoje já se tem notícias de alumas iniciativas em empresas de médio e pequeno porte, e mais ainda, percebe-se o crescimento de atividades autônomas de teletrabalho, como um sinônimo de empreendedorismo e de busca de alternativas ao crescente desemprego que assola o País. Paulatinamento o teletrabalho vem tendo aceitão em diversos lugares do mundo, mas percebe-se que o padrão de aceitação está muito relacionado com o nível de desenvolvimento de uma nação, ou seja, os países em que o teletrabalho mais rapidamente avança são aqueles que tem maior desenvolvimento tecnológico, econômico e social. Um dos destaque é a França, que tem uma boa proporção de teletrabalhadores em relação a sua população economicamente ativa e que inclusive está adiantada em no que trata de legislação e proteção trabalhista.

 

Com a chegada da internet, um dia se previu a extinção quase total dos escritórios. Em sua opinião, qual a tendência das relações de trabalho para o futuro?

Acredito que a tendência das relações de trabalho para o futuro se encaminham para o avanço e o desenvolvimento do teletrabalho em suas mais variadas modalidades, e que outras ainda inimagináveis surgirão. Do ponto de vista empresarial há a propensão da flexibilização das relações e vínculos entre trabalhadores e empresas minimizando-se muito as proteções legais dos trabalhadores. Penso que estes consituirão o que se pode chamar de "empresas individualizadas" e atuarão em projetos com prazos determinados, fazendo avançar ainda mais as práticas de empreendedorismo e farão avançar a idéia de "empregabilidade", substituindo a noção de emprego que temos hoje. Não aposto na extinção total dos escritórios, mas vejo-os cada vez mais reduzidos em termos de espaço físico e de quantidade de processos ali realizados. Há que se lembrar que nem tudo pode ser realizado a distância, pois há itens úteis socialmente e que não se circunscrevem no âmbito do conhecimento e da informação, mas que se encerram no âmbito da manufatura e da transformação material e física. Por fim, há que se pensar que o teletrabalho não surge para substituir todas as outras formas de atividade laboral, mas sim, para atender as necessidades que se impõe hoje no mundo de maior econômia e racionalidade na utilização dos recursos que hoje se tornam concretamente esgotáveis. E por enquanto, conhecimento não parece um recurso esgotável.

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