Frequently Asked Questions.
(FAQ)
- Quais os principais meios que as empresas que
adotam o teletrabalho têm para garantir a
produtividade? Nesse sentido, os resultados têm sido satisfatórios?
Um dos mais importantes impactos do advento do
teletrabalho nas organizações foi justamente o fato de que a quebra
das barreiras espaço-temporais para a realização das atividades
empresariais, quebraram com o paradigma secularmente aceito e
praticado da supervisão e gerenciamento visual do trabalhador e o
controle do tempo de atividade. Ou seja, tradicionalmente se
praticava a orientação e supervisão das atividades a partir da
observação visual do trabalhador, das suas atividades, das suas
pausas no trabalho, e da sua produtividade e do controle das horas
trabalhadas. Com o teletrabalho, isto vem se modificando e
percebeu-se que a primeira mudança em termos de modelo mental seria
passar de uma visão de compra de tempo do trabalhador para um visão
de compra de resultado. Assim, já que os controles anteriores não
são mais possíveis de atender a esta nova realidade, entendeu-se,
ainda que com um grande nível de insegurança, discussão e polêmica,
que o foco no resultado garantiria a produtividade. Assim, adotou-se
como modelo de gestão viável, a gestão participativa e a
administração por objetivos ou por resultados. E nesse sentido,
tem-se tanto exemplos e relatos de sucesso, quanto de fracasso. Mas
em qualquer que seja o resultado já se tem avaliado que o sucesso e
o fracasso estão relacionados com as condutas e o perfil de
competências dos telegerentes, mais do que a inadequação ou não do
modelo de gestão adotado.
- Ainda existe preconceito ou resistência - tanto
de empregados quanto de empregadores - a essa forma de relação de
trabalho?
Ainda existe muito preconceito ou resistência,
tanto de teletrabalhadores quanto de empregadores. Por parte dos
empregadores, primeiro porque ainda há uma desconfiança com relação
a "se os trabalhadores realmente estão trabalhando quando a
supervisão não está focada no controle visual e no controle da
jornada de trabalho". Uma coisa aparentemente tão simples pode
encontrar resistências psicológicas bem firmes, pois essa perda de
controle implica numa sensação de perda de poder e sabemos que o
poder é uma tônica importantíssima nas organizações. Menor controle,
significa menor poder do empregador e maior autonomia do
trabalhador. Imagine como fica a cabeça de um gestor tradicional ao
imaginar que não controlará mais o tempo de trabalho e nem a forma
como este será executado, e que terá que "confiar mais no
trabalhador" e terá apenas como garantia os resultados de
produtividade previamente fixados, tanto em termos de quantidade,
quanto de qualidade. E do ponto de vista do trabalhador, a
resistência reside nas mudanças de sinais de "status funcional",
pois na empresa, a personalização e a dimensão do espaço que um
trabalhador ocupa, o uso de equipamentos e materiais dão sinais do
maior ou menor prestígio que um trabalhador possui na organização.
Além do mais, deixar de ir à empresa, impacta o sentimento de
pertença à um grupo de referência, sentimento este muito importante
para a segurança, a auto-estima, e a sensação de realizar um
trabalho útil e importante. Num plano mais concreto, há o
questionamento sobre as proteções legais do trabalhador e a
desconfiança de que o teletrabalho implica em menor remuneração.
Isto é apenas uma pequena ponta do Iceberg, mas
que já dá para antever que ainda há uma relação de desconfiança
mútua entre trabalhador e empregador no que se refere ao
teletrabalho, parecendo resgatar a discussão do eterno conflito
capital X trabalho.
-
Como o empregado que trabalha em casa deve agir
para separar o espaço e a vida profissionais do lado pessoal? É um
problema recorrente?
No campo do teletrabalho, como se pode ver, tudo
ainda é muito discutível e sujeito à reformulações. É um problema
recorrente, a indiferenciação entre vida familiar e vida
profissional. Há relatos de extremos em que o trabalhador não
consegue fazer esta separação e permite que o conjugê e os filhos
frequentem o espaço de trabalho, no horário em que se programou para
trabalhar, e ainda que permitem interferências familiares na
atividade e que isto atrapalha a produtividade e a qualidade do
trabalho.Por outro lado, há também relatos de trabalhador
que tão preocupado com a questão de manter a separação entre vida
familiar e trabalho, praticamente "expulsa" conjugês e filhos, de
casa. As recomendações mais comuns é que se estabeleçam limites,
separando bem os espaços e determinando-se tanto quanto possível a
trabalhar em horários em que os filhos estão na escola, ou que se
isto não for possível, se possa negociar com a família, a manutenção
do silêncio e da tranquilidade no espaço de trabalho e a
não-interferência nas atividades. Tem-se que isto se define a partir
do perfil mais ou menos adequado de um indivíduo para o
teletrabalho: organização, iniciativa, auto-motivação,
autocontrole, consciência profissional entre outros.
-
Quais as principais dificuldades para aqueles que
são adeptos do teletrabalho? E as vantagens?
Como em todo novo contexto, também o teletrabalho
apresenta desvantagens e vantagens, e a maior ou menor otimização
destas recai sobre as condutas adotadas tanto por parte das empresas
como por parte do teletrabalhores.
Em relação as dificuldades, fora as já apontadas
nas questões anteriores, pode-se ainda destacar o sentimento de
isolamento, a tendência ao complexo de adiamento ou de desenvolver a
compulsão pelo trabalho (workaholic) não conseguindo mais manter
atividades de lazer e de relacionamento social, e
a insegurança com relação a sua empregabilidade. Quanto as
vantagens, podemos salientar os ganhos sociais e pessoais em termos
de economia tanto para empresas como para teletrabalhadores, pois
ambos eliminarão alguns gastos relacionados ao trabalho presencial,
tais como: redução dos custos fixos das empresas que poderão ter
estruturas físicas mais enxutas e reduzidas as suas operações
presenciais mínimas, diminuição dos custos de energia elétrica,
água, mobiliário e materiais de escritório, eliminação do tempo
gasto pelo trabalhador para se locomover até ao local de trabalho,
economia de gastos com transportes, diminuição do stress causado
pelo trânsito das grandes cidades, maior autonomia e liberdade para
definir métodos de trabalho e horários para executar suas atividades
e muitas outras.
-
Qual a situação do teletrabalho no Brasil hoje,
se comparada com outros países? Onde há maior aceitação? Há números
a respeito?
O teletrabalho no Brasil parece vir crescendo
gradativamente. Lógico que esbarra nos entraves econômicos e sociais
do país, e avança no ritmo em que esses entraves vão sendo
superados. O teletrabalho se inicia no Brasil a partir da adoção de
empresas multinacionais que começam a adotar aqui práticas já
adotadas em suas matrizes. Assim, no Brasil, o teletrabalho está
inicialmente vinculado a empresas de capital internacional. Em
seguida, começa a ser adotado por empresas nacionais de grande
porte. Hoje já se tem notícias de alumas iniciativas em empresas de
médio e pequeno porte, e mais ainda, percebe-se o crescimento de
atividades autônomas de teletrabalho, como um sinônimo de
empreendedorismo e de busca de alternativas ao crescente desemprego
que assola o País. Paulatinamento o teletrabalho vem tendo aceitão
em diversos lugares do mundo, mas percebe-se que o padrão de
aceitação está muito relacionado com o nível de desenvolvimento de
uma nação, ou seja, os países em que o teletrabalho mais rapidamente
avança são aqueles que tem maior desenvolvimento tecnológico,
econômico e social. Um dos destaque é a França, que tem uma boa
proporção de teletrabalhadores em relação a sua população
economicamente ativa e que inclusive está adiantada em no que trata
de legislação e proteção trabalhista.
- Com a chegada da internet, um dia se previu a
extinção quase total dos escritórios. Em sua opinião, qual a
tendência das relações de trabalho para o futuro?
Acredito que a tendência das relações de trabalho
para o futuro se encaminham para o avanço e o desenvolvimento do
teletrabalho em suas mais variadas modalidades, e que outras ainda
inimagináveis surgirão. Do ponto de vista empresarial há a propensão
da flexibilização das relações e vínculos entre trabalhadores e
empresas minimizando-se muito as proteções legais dos trabalhadores.
Penso que estes consituirão o que se pode chamar de "empresas
individualizadas" e atuarão em projetos com prazos determinados,
fazendo avançar ainda mais as práticas de empreendedorismo e farão
avançar a idéia de "empregabilidade", substituindo a noção de
emprego que temos hoje. Não aposto na extinção total dos
escritórios, mas vejo-os cada vez mais reduzidos em termos de espaço
físico e de quantidade de processos ali realizados. Há que se
lembrar que nem tudo pode ser realizado a distância, pois há itens
úteis socialmente e que não se circunscrevem no âmbito do
conhecimento e da informação, mas que se encerram no âmbito da
manufatura e da transformação material e física.
Por fim, há que se pensar que o teletrabalho não
surge para substituir todas as outras formas de atividade laboral,
mas sim, para atender as necessidades que se impõe hoje no mundo de
maior econômia e racionalidade na utilização dos recursos que hoje
se tornam concretamente esgotáveis. E por enquanto, conhecimento não
parece um recurso esgotável.